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 ...faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão

 ...eu tinha uma colméia aqui dentro do meu coração.
E as abelhas douradas faziam favos brancos
e um doce mel dos meus antigos fracassos

Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel

Mário de Andrade desce aos infernos
(fragmento)
(A Rosa do povo)

Quando as abelhas fazem enxame

 é sinal de fim de inverno

 

 

 



Escrito por Marisol às 00h23
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ao lado da cama
sapatos em cadarços
amarram histórias,
e não sei se calço
ou descalço de vez
esses tantos vultos

(anônimo)

 

Sapatos

Num canto,
guardam os passos

e aguardam todos os caminhos.

                                                     Rita de Cássia Alves

 

SAPATOS NOVOS

Agora está tudo resolvido
Comprei ainda ontem um novo par de sapatos
São pretos, algo clássico
Posso usar em meu trabalho
Depois que nos casarmos
Só faltava isto
Posso procurar portanto, seu pai
E me declarar seu pretendente
Ganho pouco, é verdade
Mas sou direito
E trabalho no serviço público
Não tenho vícios
Gosto de tema bíblico
E não dou trela para desocupado
Sou homem de poucos amigos
Como todos os dias meu ensopado
Sempre na hora marcada
E não bebo tão pouco
Minha lida é da casa para o trabalho
Do serviço para casa
Vou viver para minha família
Por toda a minha vida
Lavorar como um leão
Sei que você é moça prendada
E vai dar conta do recado
Quero que no fim da vida
Cansado e de pijama listrado
Ficar lendo jornal
Deitado em meu velho estrado

                                         Xande Rêgo

 

 

SONETO DE DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul  também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

                                                         Carlos Pena Filho

 

Sapato Velho
(Mu/Cláudio Nucci)
Roupa Nova

Você lembra, lembra, naquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói
Era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy

Você lembra, lembra,
eu costumava andar bem mais de mil léguas
Pra poder buscar flores-de-maio azuis
E os seus cabelos enfeitar

Água da fonte cansei de beber pra não envelhecer
Como quisesse roubar da manhã um lindo pôr de sol
Hoje não colho mais as flores-de-maio
nem sou mais veloz como os heróis

É... talvez eu seja simplesmente
Como um sapato velho
Mas ainda sirvo se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio dos seus pés

Água da fonte cansei de beber pra não envelhecer
Como quisesse roubar da manhã um lindo pôr de sol
Hoje não colho mais as flores-de-maio
nem sou mais veloz como os heróis

 

 

 



Escrito por Marisol às 00h04
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